Alunos gravam audiolivro para biblioteca braille

“Basta de cidadania obscena!”, de Mário Sérgio Cortella e Marcelo Tas, passou a integrar o acervo do Centro Cultural São Paulo após produção de alunos do Colégio Humboldt

por Daniella Barbosa Buttler  1 de novembro de 2018

Quando iniciei minha carreira, em 1991, a figura do professor era aquele que escrevia na lousa, de costas para o aluno. Esse docente quase não existe mais. Isso não significa que o modelo tradicional seja inadequado, significa que há outros em cena e que para o atual contexto, há outros modelos mais inovadores, como o da metodologia ativa. Acho que é o que tento fazer de inovação nas minhas aulas. A função do docente agora é despertar o interesse do aluno, é trazer ao educando o discernimento frente a essa quantidade grandiosa de material disponível.

E para isso, conto com a ajuda das novas tecnologias. A tecnologia mudou radicalmente a relação das pessoas, mas sozinha ela não basta para inovar. É preciso pensar em outras coisas. No caso do Projeto Visum (nomeado assim pelos alunos), trabalhamos também temas como a inclusão, por meio da interdisciplinaridade. Gosto de trabalhar de forma interdisciplinar, algo já trazido nos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) em 1996, nos temas transversais, por isso, recorri a duas pessoas: à docente de Direito do Curso Dual (formação profissional), professora Maria Cristina Fagundes de Almeida e ao Caio Pereira, executivo da Bayer, multinacional alemã, onde alguns alunos do curso DUAL trabalham.

A professora Maria Cristina trouxe então essa temática com o conteúdo sobre o amparo legal ao deficiente no ambiente corporativo. E para complementar nossas aulas (língua portuguesa e direito), recebemos o Caio Pereira, executivo da Bayer, para falar sobre cotas para PCD (Pessoa com deficiência) dentro da multinacional.

Refletindo sobre a minha relação com as pessoas, sobre a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), que aponta a importância do desenvolvimento das habilidades socioemociais como afetividade, autonomia e socialização entre docentes e discentes, tentei reforçar a questão do protagonismo do aluno.

Outro motivo foi a discussão cada vez mais frequente e presente nas escolas e nas empresas sobre inclusão. E uma outra razão ainda foi o tema de redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) de 2017, que esteve disponibilizado justamente na época do início do nosso trabalho: “Os desafios para formação educacional de surdos”. Redação que muitos alunos fizeram, porque alguns alunos do DUAL estão na fase de participarem da prova do Enem. Com base neste assunto, trabalhei efetivamente a inclusão de pessoas com deficiência em sala de aula e também no mercado de trabalho.

Pedi aos alunos que mencionassem se tinham colegas com alguma deficiência nas empresas onde estagiavam. Deste modo, percebemos que essa realidade estava muito perto de nós. Foi no meio dessa vibração, que pensei em como colocar esse tema, amplamente discutido, em prática. Entrei em contato com a Biblioteca Braille do Centro Cultural São Paulo e perguntei o que os usuários daquele espaço gostariam de ler e que ainda não estava em Braille. Eles me enviaram uma lista de livros inacessíveis. Mostrei aos alunos essa lista e eles escolheram uma obra com maior aderência ao nosso curso: Basta de cidadania obscena! De Mário Sérgio Cortella e Marcelo Tas. Daí nasce o Projeto Visum, que significa visão em latim.

Além de desenvolver comportamentos leitores e discussões interessantes sobre o tema cidadania, considerando essa obra, também observei mudanças no comportamento, na vida de meus alunos. Primeiro porque todos queriam muito participar da gravação no estúdio. Isso pra mim, era uma satisfação. E depois, porque os estudantes participaram de todos os processos, no âmbito real, desde o contato com a editora, até a edição e o envio para aprovação. Antes de gravar, tivemos a preocupação de entrar em contato com os editores (Papirus) e eles tinham toda uma burocracia sobre direitos autorais. Nós assinamos contrato e os alunos também tiveram que assinar um contrato de cessão de voz. Documentos e gêneros textuais da esfera jurídica importantes para um aluno de um curso como o DUAL.

Os alunos perceberam que juridicamente a gravação de um audiolivro não é algo simples, há todo um processo, um percurso legal e imprescindível para a execução do material. Além disso, a Biblioteca Braille precisou assinar um termo de recebimento deste audiolivro para garantir que ele não se torne um material pirata.

Mas a mudança mais gratificante foi sentir que os alunos enquanto gravavam, estavam ali dando o máximo de si para ter um resultado legal, eles estavam realmente empenhados em fazer um projeto bom para de fato incluir as pessoas com deficiência.

Quando fomos à Biblioteca Braille de São Paulo, no Centro Cultural São Paulo, para oficializar a entrega do audiolivro, notei também, no ato da entrega que os alunos estavam muito sensíveis à dinâmica do local, inclusive ao código Braille, que chamamos de “sistema de sinal” e não “língua”, como em Libras.

Foi um momento importante para conhecermos o processo de material para as pessoas com essa deficiência. Além de ser um material restrito, há poucas parcerias, poucos voluntários para gravação de audiolivro. E isso foi revelador, pois alguns alunos se inscreveram para continuar o trabalho, por conta própria, lá no estúdio, na biblioteca braille, como voluntários na gravação de outros audiolivros. Saímos todos do Centro Cultural certos de termos dado um ponta pé inicial a um projeto de tal envergadura que queremos que se torne tradição dentro do Colégio Humboldt.

Como professora e cidadão, desenvolver esse projeto foi uma oportunidade para refletir sobre o que é ser verdadeiramente inclusivo e lembrar que inclusão é mais do que acolhimento. É oportunidade de desenvolver habilidades e potencialidades e tornar invisíveis as deficiências que todos nós temos.

Fonte: Porvir

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